quinta-feira, 22 de maio de 2025

Aceitar os vazios

Desde que me conheço que lido mal com os vazios que se instalam na minha vida. É certo que, à medida que fui crescendo (pouco), e que fui me conhecendo melhor, os mesmos deixaram de me atingir, não com menos frequência mas sim com menos impacto. Com menos força. Até há cerca de três anos, a maneira que tinha de lidar com os vazios, a maior parte deles, sem qualquer explicação plausível, era através da fuga. Fosse com substâncias, sexo, comida ou compras ou outra "diversão", qualquer hipótese era válida para escapar ao desconforto e por vezes até da dor que sentia. Depois surgiu a terapia cognitiva comportamental, e com ela surgiram também novos conhecimentos e significados. Fui descobrindo coisas que a minha alma imatura simplesmente desconhecia. Não deixei de fugir por completo, mas pelo menos agora, tenho mais consciência do que se passa no meu interior e tenho opção de encarar esse limbo onde nada parece fazer sentido e que me deixa à toa e desorientado. Encarar os desafios que resultam do choque frontal com o vazio, requer coragem, acima de tudo coragem, e também assumir a própria vulnerabilidade. É importante que o saibamos fazer sozinhos. Saber preencher o espaço em branco, pode ser doloroso mas penso que se soubermos o que nos energiza, meio caminho está feito. Encontro agora, diversas formas de lidar com esse espaço, sendo que a leitura, o exercício físico, a meditação e o contacto com os outros, encabeçam a lista das possíveis soluções. No entanto, para que também essas coisas não se tornem uma fuga desmesurada, e, por conseguinte, viciante e pouco saudável, tento perceber e sentir todas as emoções e sentimentos que resultam dessa viagem à parte que nos deixa ocos. Tento trabalhar sobre eles. Procuro sobretudo o que fazer com tais emoções, porque todas elas têm o seu propósito, muitas vezes camuflado ou residente numa parte que não alcançamos. Desbravar caminho torna-se essencial, ultrapassando desconfortos e dores. 

Aqui há uns tempos, tomei a decisão, por impulso, de deixar de fumar. Sem nenhum plano, eu que sou avesso a eles, não por não achar que não façam sentido, mas sim porque sou péssimo em traçá-los. Claro que falhei. Estava impreparado a muitos níveis. Mas a maior dificuldade que senti, foi mesmo a de lidar com o vazio que a falta dos cigarros me infligia. A parte da dependência física estava controlada por via de medicação, a parte psicológica toda minada pela minha incapacidade em estar sem o fumo. Posto assim parece simples: basta pensar nos malefícios e toca a andar para a frente. No outro lado, dentro da minha cabeça, a coisa ganha volumes de complexidade gigantes. 

Tenho por hábito acordar muito cedo, geralmente por volta das cinco da manhã já estou de pé. Faço os meus rituais de madrugada que incluem higiene pessoal, leitura, meditação, e claro... fumar. Fumar à janela de madrugada enquanto bebo um café, é das coisas que não tem preço. São momentos meus em que observo o nascer do dia, os gatos que cruzam a estrada, o ar limpo da manhã, o silêncio que anestesia a cidade. Nos tais dias em que tentei deixar de fumar, esses momentos ficaram comprometidos. Não eram iguais, Não tinham a mesma intensidade, e eu tinha a sensação de viver numa casa onde falta sempre uma divisão ou que está desarrumada. Aquela sensação de ausência de algo, e, neste caso, muito bem identificada. Os cigarros! Foi um instante enquanto dei por mim a acender um atrás do outro novamente. 

Mas fumar já não se coaduna com o estilo de vida que quero ter e que procuro implementar. De alguma maneira, já não faz parte de mim. Por mais suplementos que tome, por mais exercício físico que faça, por mais que tente ter um sono equilibrado e sólido, por mais que tente respirar saúde mental, é como se o facto de fumar, minasse tudo isto e fosse uma mancha em mim, ou melhor, uma nódoa que a maior das vontades não consegue remover. Que puta de situação.

Ontem a minha terapeuta disse-me de uma forma complexa e profunda aquilo que, mais tarde, resumiu com uma frase: precisas de aceitar o vazio.

E é neste ponto que me encontro: a tentar perceber como o vou fazer. Porque aceitar vazios é encarar a alma de frente e nesse campo, sou excelente em boicotar-me. 

Sei que há um desejo que já ganhou forma há muito, que é largar este hábito sujo. E para isso, também me preciso de ver livre de outra coisa em que sou muito bom - parar de me dar porrada mental. Mas isso é assunto para outro dia e outro cigarro depois.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

colecionar o inútil

Tenho andado a pensar nas coisas que vamos acumulando ao longo da nossa vida. Pensei, por  exemplo, na casa da minha mãe e nas coisas todas que há lá dentro. Um dia, olhava para alguns desses objectos, alguns decorativos, e pus-me a tecer, que caso ela parta antes de mim, eu e a minha irmã ficaremos com tudo o que foi dela. O espaço não é enorme, mas está bem aproveitado. Cada canto tem algo que eu, pessoalmente, não aprecio ou não vejo qualquer utilidade. À parte de uns tachos, canecas, pratos, talheres, formas de bolos, copos que dão sempre um jeitinho do caraças, há vasos chineses, loucinhas, serviços de chá, peças em cobre que decoram a cozinha. Tudo coisas que, para mim, não sinto terem um objectivo específico. O que farei com elas? Posso dá-las a quem precisa, claro, mas certamente que sentirei o peso da história que está por detrás de cada uma dessas coisas e também o facto de ter pertencido a uma pessoa que me amava incondicionalmente. Depois pensei também nas minhas próprias coisas. Os objectos também contam capítulos das nossas vidas, é certo. Marcam lugares, pessoas e momentos pelos quais nos passeámos. Cada um deles é uma espécie de prova viva de que estamos por cá. É assim que olho para eles. São rastos materiais da nossa identidade e que revelam gostos, manias, desejos. Tudo passa e ao mesmo tempo, tudo fica.

Acumulei livros essencialmente. Não possuo grandes bens. Se pensar na efemeridade da vida, faz-me ainda mais sentido não ser coleccionador de nada. Andamos por aqui pouco tempo, deixar a menor bagagem possível é o meu objectivo. Claro que gostaria de deixar algumas coisas à minha filha, sobretudo e fundamentalmente a tão desejada segurança financeira. Mas não quero que, um dia, tenha nas mãos a dificuldade de se ver livres das coisas que a pancada do pai lhe deixou. Cada vez mais sou apologista de usar mas não abusar, em quase tudo o que me gravita, e isso inclui as coisas que compro. Ainda tropeço no erro de adquirir objectos que mais tarde só me pesam e nada trazem de concreto à minha vida. Nada de útil. Faz-me sentido investir no conhecimento e continuar a expandir a minha curiosidade e criatividade, isso sim. Colecionar monos, sejam eles de que natureza for, não é o meu forte. Procuramos através do que adquirimos preencher buracos que não são possíveis de serem preenchidos desse modo. Já o fiz e, provavelmente, continuarei a fazê-lo aqui e ali. Mas estou desperto, e não quero ir por aí. A vida já me ensinou e mostrou que a maior prenda que dou a minha próprio é o culto das coisas invisíveis e que se convertem em memórias agradáveis e confortantes. É assim e sempre será, pelo menos neste meu entendimento. Estar desperto, significar conhecer bem o limiar do que nos faz falta e é mesmo essencial, daquilo que não nos acrescenta nada. Podemos olhar à nossa volta e gostar de ver provas do nosso esforço, mas eu encontro outras formas de me rever noutras provas. 

Defendo acima de tudo, para fazeres o que achares bem e de acordo com aquilo que te move. A mim, move-me muito o movimento, da mente e do corpo, e isso quer dizer que não quero estagnar e estar parado como muitas vezes estou. 

Coleccionar formas de prazer e de riqueza interior é a minha prioridade, mas sou um pequeno bebé nisso. Crescerei se assim quiser.

Mudanças

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