Tenho andado a pensar nas coisas que vamos acumulando ao longo da nossa vida. Pensei, por exemplo, na casa da minha mãe e nas coisas todas que há lá dentro. Um dia, olhava para alguns desses objectos, alguns decorativos, e pus-me a tecer, que caso ela parta antes de mim, eu e a minha irmã ficaremos com tudo o que foi dela. O espaço não é enorme, mas está bem aproveitado. Cada canto tem algo que eu, pessoalmente, não aprecio ou não vejo qualquer utilidade. À parte de uns tachos, canecas, pratos, talheres, formas de bolos, copos que dão sempre um jeitinho do caraças, há vasos chineses, loucinhas, serviços de chá, peças em cobre que decoram a cozinha. Tudo coisas que, para mim, não sinto terem um objectivo específico. O que farei com elas? Posso dá-las a quem precisa, claro, mas certamente que sentirei o peso da história que está por detrás de cada uma dessas coisas e também o facto de ter pertencido a uma pessoa que me amava incondicionalmente. Depois pensei também nas minhas próprias coisas. Os objectos também contam capítulos das nossas vidas, é certo. Marcam lugares, pessoas e momentos pelos quais nos passeámos. Cada um deles é uma espécie de prova viva de que estamos por cá. É assim que olho para eles. São rastos materiais da nossa identidade e que revelam gostos, manias, desejos. Tudo passa e ao mesmo tempo, tudo fica.
Acumulei livros essencialmente. Não possuo grandes bens. Se pensar na efemeridade da vida, faz-me ainda mais sentido não ser coleccionador de nada. Andamos por aqui pouco tempo, deixar a menor bagagem possível é o meu objectivo. Claro que gostaria de deixar algumas coisas à minha filha, sobretudo e fundamentalmente a tão desejada segurança financeira. Mas não quero que, um dia, tenha nas mãos a dificuldade de se ver livres das coisas que a pancada do pai lhe deixou. Cada vez mais sou apologista de usar mas não abusar, em quase tudo o que me gravita, e isso inclui as coisas que compro. Ainda tropeço no erro de adquirir objectos que mais tarde só me pesam e nada trazem de concreto à minha vida. Nada de útil. Faz-me sentido investir no conhecimento e continuar a expandir a minha curiosidade e criatividade, isso sim. Colecionar monos, sejam eles de que natureza for, não é o meu forte. Procuramos através do que adquirimos preencher buracos que não são possíveis de serem preenchidos desse modo. Já o fiz e, provavelmente, continuarei a fazê-lo aqui e ali. Mas estou desperto, e não quero ir por aí. A vida já me ensinou e mostrou que a maior prenda que dou a minha próprio é o culto das coisas invisíveis e que se convertem em memórias agradáveis e confortantes. É assim e sempre será, pelo menos neste meu entendimento. Estar desperto, significar conhecer bem o limiar do que nos faz falta e é mesmo essencial, daquilo que não nos acrescenta nada. Podemos olhar à nossa volta e gostar de ver provas do nosso esforço, mas eu encontro outras formas de me rever noutras provas.
Defendo acima de tudo, para fazeres o que achares bem e de acordo com aquilo que te move. A mim, move-me muito o movimento, da mente e do corpo, e isso quer dizer que não quero estagnar e estar parado como muitas vezes estou.
Coleccionar formas de prazer e de riqueza interior é a minha prioridade, mas sou um pequeno bebé nisso. Crescerei se assim quiser.
Sem comentários:
Enviar um comentário