Aqui há dias, vi um vídeo de um homem que sobreviveu a um desastre de avião, a um desastre de comboio e que depois optou por comprar um carro para se deslocar, mesmo em grandes viagens, porque temia pela sua segurança. Acontece que acabou por ter dois acidentes graves de automóvel, aos quais também sobreviveu. Mais tarde, viria a ganhar a lotaria. Morreu aos 83 anos.
Ontem falava com o meu colega de trabalho sobre como existem pessoas que parece que estão predestinadas a que as coisas lhes corram de feição na vida. E conversámos sobre um colega de trabalho ao qual as coisas parecem sempre correr às mil maravilhas. É das pessoas que mais ganha na empresa, tem benesses que outros não têm, e leva uma vida tranquila. Casado com uma mulher que também aufere um bom ordenado mensal, vivem os dois em plena harmonia, numa espécie de sinfonia harmoniosa para com a vida. E a partir daqui, eu e o meu colega, dissertámos um pouco sobre estas questões do que é ter sorte; há pessoas que parece terem nascido com uma estrelinha que as acompanha nessa jornada fora. Às vezes, e em alguns casos, fazem pouco, e tudo lhes vem parar às mãos. Não precisam de se esforçar muito. O presente oferece-lhes presentes. Outras há que, mudam de país, batalham por condições melhores, e parece que nunca saem da cepa torta. Lutam, lutam e lutam e a única coisa que lhe aterra em cima, são condições cada vez mais difíceis e cada vez mais desafiantes. Um gajo nasce aqui e tem uma vida X mas se nascesse noutro lugar qualquer, teria uma vida Y? Pessoas que remam contra o peso dos dias, que remam contra a sina dos malditos. Ao contrario de sinfonias harmoniosas, a música no gira discos do seu cosmos parece ser caótica e distorcida. A vida pode ser muito dura, mas quando se tem a sorte do seu lado, ela ganha uma nova vida dentro de si, uma espécie de universo paralelo onde tudo parece ser possível. Há quem diga que a sorte é uma coisa que inventamos, que criamos, que procuramos, tal como as oportunidades. Mas o fio da narrativa das estranhas histórias que se ouvem, é posto em cima da mesa quando vemos a diferença entre vida das pessoas. Uns morrem ao primeiro acidente de automóvel ou sucumbem a estranhas tragédias, outros sobrevivem a desastres de aviões e a doenças que de início pareciam fatais. Há qualquer coisa estranha nisto que separa uns e outros. Será destino? Será uma história já escrita à nascença onde somos apenas meros personagens ao sabor das casualidades da vida? E existem casualidades? São algumas das questões que me assolam e que nunca irão ser respondidas. Poderia falar de algumas maldições com as quais já me debati, mas depois penso que mesmo não ter sobrevivido a um desastre de avião, nem ter ganho a lotaria, bem lá no fundo, considero que tenho uma certa dose de sorte a meu favor.
Uma tia minha diz-me muitas vezes que tenho um grande anjo da guarda ao meu lado. E eu acho que sim, que ela tem razão.