quando chego à livraria, a cafeteria está bem composta. Há pessoas a lanchar, simplesmente a beber chá ou café, e a conversar. Para um introvertido como eu, caminhar por entre mesas para ir fazer um pedido ao balcão, torna-se mais difícil. Opto por sentar-me na esplanada, carrego no botão do dispositivo que está na mesa, e dispositivo esse que serve para chamar o empregado. Peço um descafeinado e um copo de água. Aguardo uma amiga que está ligeiramente atrasada. Olho para o relógio, e apercebo-me de que fui que me adiantei. Acendo um cigarro e o frio quase que me imola as mãos. Em tempos trabalhei aqui. Foram dias difíceis, fruto de uma mente complicada e uma falta de discernimento para perceber que todas as ansiedades são contornáveis. Hoje sou cliente e ciente.
Olho à minha volta, e às vezes penso que a vida seria bem fácil se possuísse um manto invisível como o do Harry Potter. Não gosto que olhem para mim, que me perscrutem, que me avaliem, porque em todo o olhar inusitado, há um julgamento inerente. Mas quem vive debaixo de fogo, também aprende a não se importar com o que os outros pensam. Deixai-os estar. Há algum tempo que namoro um livro, mas ainda não é hoje que o vou levar. Preciso de pensar nas minhas contas, nas minhas contas de fumador, nas contas de quem tem outras prioridades, onde se inclui uma estúpida dependência química. Essas contas e mais outras; água, luz, gás, internet, ginásio, gasolina, e mais não sei que imprevistos que acabam sempre por subir à tona. Há que estar preparado, e, para mais, tenho muitos livros para ler em casa. Fumo outro cigarro, ninguém na esplanada, com excepção de um senhor que traz um pequeno cão pela trela.
A minha amiga chega e cumprimentamo-nos. Fico embaraçado, mas sei que qualquer contacto social, me deixa sempre assim — sem jeito e com uma ligeira sensação de desconforto físico e mental. Demoro um pouco a encetar conversa, a entrar no jogo das palavras. Uso o humor para desanuviar, às vezes digo umas piadas porreiras, outras vezes é só palhaçada do meu lado imaturo e, sobretudo, de alguém que não sabe estar fora de portas. Pedimos um chá de limão com gengibre para dois. Nesta altura, a conversa já flui um pouco mais livre, e nada do que me atrasa parece querer surgir vindo do nada. Falamos sobre textos, romances e outros projectos. Também das nossas vidas e de tudo aquilo que as governa e não governa. É um final de tarde agradável. Quando finalmente chega a hora de irmos às nossas vidas, despedimo-nos e encaro os degraus das escadas que preciso de subir para o carro. Não deixámos espaço para outro encontro, não mencionámos isso, e é melhor assim, porque comigo nunca se sabe. Eu que sou bicho do mato e que no Inverno, sobretudo no Inverno, se gosta de refugiar na proteção da casa, apesar de ter a perfeita noção que preciso de sair mais e conviver, com a devida eminência de um dia deixar de saber articular palavras. E isso lembra-me a história de Kaspar Hauser. Ele que viveu tanto tempo numa masmorra, privado de tudo, e que não sabia pronunciar uma única palavra quando foi devolvido ao mundo. Quando chego ao carro, estou ofegante. As subidas dão cabo de mim.
Arranco e penso — amanhã irei ao mercado e ao ginásio. Preciso de conviver, nem que seja com estranhos.
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