quando há uma separação entre duas pessoas, existe uma tendência natural para racionalizar os motivos de tal acontecimento. Podemos descobrir, ou não, a verdadeira causa da ligação se ter consumido e desvanecido. Frequentemente, perdemo-nos em argumentos válidos para nós mesmos, argumentos esses que são obliterados, ou ensombrados, pelos sentimentos e emoções que gravitam no nosso interior. Procuramos a razão para tal fim, e muitas vezes adquirimos uma obsessão maléfica por essas ruminações. Os motivos de um, podem ser desculpas esfarrapadas para o outro.
Lembro-me de um colega de trabalho que tive, ao abordarmos esta questão nas inúmeras conversas que mantínhamos entre o grupo de trabalho, e que dizia sem rodeios — “há sempre um que se fode”. Ora, um pode ficar bem, e outro ficar estático debaixo do fogo ardente do seu inferno pessoal. Eu acho que, na maioria dos casos, os dois envolvidos lixam-se, embora em medidas diferentes, mas verdade é, que ambos entram no mundo dos “e se?”. Poucas coisas existem piores do que viver sob a alçada dos “e se?”. O fim de uma relação implica também compromisso. Mas esse compromisso passa a ser pessoal. Um compromisso para consigo próprio. Uma devoção de querer que o coração aprenda as lições, sem sair demasiado danificado daquele acidente. Aquilo que um compreende à partida melhor, pode para o outro não fazer qualquer sentido. Quantas vezes nos fomos embora de algo, deixámos algo para trás, pessoas que nos eram muito íntimas, por acharmos que já nada fazia sentido e nos sentíamos descaracterizados? Provavelmente, o outro não era a questão, mas sim a vivência toda em si. Há alturas em que nem é a falência dos sentimentos que ditam o fim de uma relação. É a falência daquilo que fomos perante o outro e que, mais tarde, nos conduz à falta da identificação com a nossa essência. Tudo aquilo que é certo para uns, pode ser instável para outros. Não há regras e parece-me que são sempre as excepções que as confirmam. Uma separação é dura para ambos os intervenientes. Não. Não há só um que se fode. Fodem-se os dois. Mesmo que, aparentemente, um deles viva mais leve ou novamente motivado pelos pergaminhos da vida. Há um sofrimento interior que permanece, que não se apaga, que não se extingue. Um sofrimento que atesta que nos dedicámos a fundo em algo que não resultou. E o que era resultar, afinal? Ficarem juntos para a vida? Mas em que condições? Às vezes, o fim da relação, é aquilo que resultou e traz em si, a marca bem vincada de que tudo funcionou como deveria ter funcionado. Uma separação pode ser uma verdadeira tragédia, com a devida bandeira colocada a meia haste, como pode também ser estio para algo maior: o encontro com a nossa identidade e os nossos desejos pessoais em querer trilhar o caminho sozinho.
Nunca se saberá quem teve razão ali, ou quem falhou acolá. Mas são esses galhos soltos que compõem o cerne da copa toda. São essas pequenas armadilhas, a de querer justificação para tudo, que nos deixam na merda.
Às vezes não há justificação para todas as coisas, e não adianta de nada procurar a agulha no palheiro. O fim é sempre triste. Mas como em todas as mortes, há sempre a ideia pendente de uma ressurreição.
E essa ressurreição, acontecerá, quer seja a bem ou a mal. Acontecerá, ainda que nos dias mais negros, nos sintamos mortos para a eternidade ou nos digamos a nós próprios — nunca mais vou viver algo assim.
É mentira.
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