sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

os rótulos

regra geral, as pessoas rotulam muito aquilo que as rodeia, com especial ênfase a quem está ao nosso lado. também já o fiz, acho que todos já o fizemos em determinadas alturas das nossas vidas. isto a propósito de um vizinho meu a quem lhe foi diagnosticado há muitos anos esquizofrenia. de lá para cá, existe quem se refira a ele como «esquizofrénico», «doente mental» (os mais generosos), ou simplesmente «maluco». tenho por hábito acordar cedo. normalmente, por volta das 5:00h já estou acordado, porque me deito cedo também. aqui há dias, uma amiga minha disse-me que nem quando tinha 6 anos se deitava tão cedo. mas eu gosto desta rotina, até porque batalho com a saga de dormir noites inteiras e seguidas. digo isto, porque ainda agora eram pouco mais das seis da manha, e lá ia esse meu vizinho, enquanto eu fumava um cigarro à janela. a esta hora, a pastelaria aqui do lado já abriu. é para lá que ele vai. vejo-o passar inúmeras vezes rua abaixo, rua acima. vai tomar o pequeno-almoço e fumar uns cigarros. ao fim do dia vai beber umas cerveja. sei-o porque às vezes passo por lá e já lhe conheço os hábitos. 

ele fala alto, sobretudo quando atende chamadas dos seus potenciais clientes. desde muito cedo que o vejo a arranjar carros, ou a tentar pelo menos. 

sempre que tem algum dinheiro disponível, compra coisas na Temu. acima de tudo, coisas de que não necessita. mas tudo bem, porque «ele é maluco». para mim, antes de tudo isso, ele é um ser humano, que já passou por muitas dificuldades; internamentos na psiquiatria, desemprego, descriminação, acessos de fúria em que destruiu o carro à bastonada, e muitas outras coisas que não caberiam aqui. antes de ser «esquizofrénico», ele é muito mais que isso. as pessoas são muito mais do que os diagnósticos que lhes foram atribuídos. são muito mais do que as doenças que envergam. são muito mais do que aquilo que sai da boca das pessoas, geralmente barbaridades e atrocidades. as pessoas são um mundo complexo de algoritmos mentais que são pré-determinados pela biologia de cada um. e esses algoritmos não deveriam ser  classificados e, muito menos, julgados. esses processos mentais que estão na base de cada indivíduo agir, são extremamente pessoais e não dizem respeito a mais ninguém. podemos discordar, podemos não embarcar em falinhas mansas, mas não deveremos nunca dizer «ele é maluco». já bem bastam os terrores pessoais com que se tem de lidar. o resto não nos pertence. e se andássemos mais preocupados em gerir as nossas próprias questões, menos espaço haveria para a crítica e para o julgamento. os rótulos são uma merda, e os únicos que curto realmente, são os róulos dos alimentos para ver o que é que um gajo anda a comer. deixem andar os malucos, onde eu também estou incluído. 

Sem comentários:

Enviar um comentário

Mudanças

Este blogue viajou para  aqui: SUBSTACK .....