ontem fui levar a minha filha à casa da mãe dela, depois de ter passado cinco dias comigo. foram cinco dias muito caseiros, fundamentalmente para pôr trabalhos da escola em dia e rever os testes feitos. o tempo foi propício para isso. choveu bastante e os dias estavam desagradáveis e frios.
depois de fazer os 150 km para lá, faltavam os mesmos em direção a casa. o céu ameaçava uma enorme torrente de chuvas. e foi num ápice que bradou a tempestade. choveu copiosamente durante meia hora no meio de uma trovoada terrível. tive de conduzir a 20 à hora, porque não via nada à minha frente. ponderei parar o carro na berma. mas queria chegar a casa. sabia que teria de regressar muito devagar. durante todo o percurso da A8, nunca parou realmente de chover. o percurso estava mergulhado numa escuridão total e a ausência de trânsito, ressalvava essa mesma escuridão. a visibilidade era reduzida e durante muito tempo rezei para que um raio não atingisse o veículo. nestas alturas, passa-me muito pela cabeça. a autoestrada, por si só, já é um lugar propenso a pensamentos, mas debaixo daquelas condições, esses pensamentos tornam-se turvos e também eles negros. um gajo pensa irremediavelmente em tragédia. depois, pensa também que não adianta nada pensar nisso, relaxa, adapta-se e conduz com precaução. liguei o rádio, recostei-me e fumei uns cigarros. se for para morrer, que seja na maior, sem medo e sem pânicos. demorei duas horas a chegar a casa. duas horas infernais e lentas com uma paragem na estação de serviço de Óbidos para mijar, beber café e fumar mais um cigarro. a estação estava deserta, o que é sempre bom, embora que ali, debaixo de chuva intensa, o cenário permaneça desolador. já acumulo tantas horas de autoestrada que já nem ligo muito ao que me rodeia. conduzo simplesmente, por entre infernos e céus ruminando na vida.
mas que esta toda nos atravessa o espírito, lá isso sim, atravessa. é fumar, e relaxar.
se for para morrer, que seja com dignidade.
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