que percebi que o destino que desenháramos, o futuro desejado e imaginado, nunca chegaria. O ex-marido dela tinha acabado de lhe oferecer um perfume francês caro. Eu tinha oferecido uma lingerie que comprara num site duvidoso de uma sex shop virtual. So depois do carteiro me tocar à porta com a encomenda, é que vi a trapalhada que tinha feito. A lingerie era reles, rasca, e em nada combinava com a elegância e o charme dela. Acabei por meter a encomenda no lixo e comprei uma garrafa de Martini Vermute e uma caixa de chocolates deluxe. Mas nada disso se comparava a um perfume francês e filhos e família pelo meio. Coisa que ela achava determinantes para se ser feliz. E ali estava, agarrado àquele corpo fino e delicado que continuava todos os dias a enfeitiçar-me, todos os dias a renovar a paixão assolapada, mesmo ao fim daqueles anos juntos. A verdade é que eu continuava a anular-me constantemente, sempre na senda de lhe agradar e, sobretudo, de tentar fazer com que esquecesse o passado, que fora demasiado cheio para um tipo vazio como eu. Ela abraçou-me nessa noite de Natal e eu senti o cheiro precoce a fim de amor. Digamos que foi intuição, porque o máximo a que o amor pode cheirar, é a mofo ou a algo enfadonho. Então, ela afastou-se e beijou-me na boca. Noutra altura, teria ficado excitado, pronto a desbravar os caminhos do sexo e dos corpos rendidos à nudez das almas ímpares e aos périplos da intimidade. Mas nesse instante, a minha alma deve ter ficado pálida e eu esmoreci num grito surdo e interior.
Foi nessa noite de Natal, e acima de tudo naquele abraço de peito contra peito, que percebi que a morte nos rondava como um abutre prestes a iniciar a descida para atacar as nossas carcassas.
Anos passaram e aqui estou, na minha aldeia e na casa do alpendre, a recordar todas as vezes que fiz figuras tristes em nome de amores que jamais se cumpriram e que jamais tomaram a forma de algo valioso para recordar.
Bebo um trago de whisky. Arde-me a garganta, aquece-me as entranhas, assassina-me neurónios, o que — foda-se — até pode vir a ser bom. Bom para deixar de ter esta capacidade de recordar as vezes em que me assumi como ridículo.

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