quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Foi quando ela me abraçou na noite de Natal daquele fatídico ano

que percebi que o destino que desenháramos, o futuro desejado e imaginado, nunca chegaria. O ex-marido dela tinha acabado de lhe oferecer um perfume francês caro. Eu tinha oferecido uma lingerie que comprara num site duvidoso de uma sex shop virtual. So depois do carteiro me tocar à porta com a encomenda, é que vi a trapalhada que tinha feito. A lingerie era reles, rasca, e em nada combinava com a elegância e o charme dela. Acabei por meter a encomenda no lixo e comprei uma garrafa de Martini Vermute e uma caixa de chocolates deluxe. Mas nada disso se comparava a um perfume francês e filhos e família pelo meio. Coisa que ela achava determinantes para se ser feliz. E ali estava, agarrado àquele corpo fino e delicado que continuava todos os dias a enfeitiçar-me, todos os dias a renovar a paixão assolapada, mesmo ao fim daqueles anos juntos. A verdade é que eu continuava a anular-me constantemente, sempre na senda de lhe agradar e, sobretudo, de tentar fazer com que esquecesse o passado, que fora demasiado cheio para um tipo vazio como eu. Ela abraçou-me nessa noite de Natal e eu senti o cheiro precoce a fim de amor. Digamos que foi intuição, porque o máximo a que o amor pode cheirar, é a mofo ou a algo enfadonho. Então, ela afastou-se e beijou-me na boca. Noutra altura, teria ficado excitado, pronto a desbravar os caminhos do sexo e dos corpos rendidos à nudez das almas ímpares e aos périplos da intimidade. Mas nesse instante, a minha alma deve ter ficado pálida e eu esmoreci num grito surdo e interior. 


Foi nessa noite de Natal, e acima de tudo naquele abraço de peito contra peito, que percebi que a morte nos rondava como um abutre prestes a iniciar a descida para atacar as nossas carcassas. 

Anos passaram e aqui estou, na minha aldeia e na casa do alpendre, a recordar todas as vezes que fiz figuras tristes em nome de amores que jamais se cumpriram e que jamais tomaram a forma de algo valioso para recordar.


Bebo um trago de whisky. Arde-me a garganta, aquece-me as entranhas, assassina-me neurónios, o que — foda-se — até pode vir a ser bom. Bom para deixar de ter esta capacidade de recordar as vezes em que me assumi como ridículo. 


terça-feira, 4 de novembro de 2025

Na Periferia do Silêncio



Às vezes, quando estou imerso no silêncio da madrugada, a mente deambula pela esteira da minha vida. Vejo-me envolto em dúvidas, em incertezas, em disparates que penso serem únicos e apenas exclusivos de mim, e penso que mais ninguém tem esse tipo de pensamentos. Para tentar quebrar um pouco esta ideia, acendo um cigarro, e atiro o fumo para a rua, numa tentativa desesperada de encontrar um significado para todas essas coisas que me ocorrem precisamente às 4h17m da madrugada. 

Não há ninguém aqui para testemunhar essa batalha. Toda a gente dorme. Menos eu e aquela senhora, que mora no prédio aqui ao lado, e que sai às 4h30m e dirige-se não sei para onde. Nunca soube para onde vai, e desconfio que nunca saberei. 


São milhões de pensamentos que me esculpem, são milhões como galáxias no Universo. Todos eles com algumas constelações que se amotinam e que se confundem. Não saberei dizer em qual delas me sinto melhor e mais à vontade. Poderia escrever sobre eles, sobre os pensamentos, mas receio não conseguir dar à mão a lucidez necessária. 


Às vezes, neste processo, sinto-me muito só. Não há ninguém aqui — volto a referir. Mas mesmo que houvesse, sei que teria dificuldade em projectar a tela das minhas constelações. 


Agora que penso em como o tentaria fazer, penso:


«raramente, alguém pergunta como estou, como me sinto.»


Não acho isto triste, apenas inevitável. 


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

a sorte de uns e outros

Aqui há dias, vi um vídeo de um homem que sobreviveu a um desastre de avião, a um desastre de comboio e que depois optou por comprar um carro para se deslocar, mesmo em grandes viagens, porque temia pela sua segurança. Acontece que acabou por ter dois acidentes graves de automóvel, aos quais também sobreviveu. Mais tarde, viria a ganhar a lotaria. Morreu aos 83 anos. 

Ontem falava com o meu colega de trabalho sobre como existem pessoas que parece que estão predestinadas a que as coisas lhes corram de feição na vida. E conversámos sobre um colega de trabalho ao qual as coisas parecem sempre correr às mil maravilhas. É das pessoas que mais ganha na empresa, tem benesses que outros não têm, e leva uma vida tranquila. Casado com uma mulher que também aufere um bom ordenado mensal, vivem os dois em plena harmonia, numa espécie de sinfonia harmoniosa para com a vida. E a partir daqui, eu e o meu colega, dissertámos um pouco sobre estas questões do que é ter sorte; há pessoas que parece terem nascido com uma estrelinha que as acompanha nessa jornada fora. Às vezes, e em alguns casos, fazem pouco, e tudo lhes vem parar às mãos. Não precisam de se esforçar muito. O presente oferece-lhes presentes. Outras há que, mudam de país, batalham por condições melhores, e parece que nunca saem da cepa torta. Lutam, lutam e lutam e a única coisa que lhe aterra em cima, são condições cada vez mais difíceis e cada vez mais desafiantes. Um gajo nasce aqui e tem uma vida X mas se nascesse noutro lugar qualquer, teria uma vida Y? Pessoas que remam contra o peso dos dias, que remam contra a sina dos malditos. Ao contrario de sinfonias harmoniosas, a música no gira discos do seu cosmos parece ser caótica e distorcida. A vida pode ser muito dura, mas quando se tem a sorte do seu lado, ela ganha uma nova vida dentro de si, uma espécie de universo paralelo onde tudo parece ser possível. Há quem diga que a sorte é uma coisa que inventamos, que criamos, que procuramos, tal como as oportunidades. Mas o fio da narrativa das estranhas histórias que se ouvem, é posto em cima da mesa quando vemos a diferença entre vida das pessoas. Uns morrem ao primeiro acidente de automóvel ou sucumbem a estranhas tragédias, outros sobrevivem a desastres de aviões e a doenças que de início pareciam fatais. Há qualquer coisa estranha nisto que separa uns e outros. Será destino? Será uma história já escrita à nascença onde somos apenas meros personagens ao sabor das casualidades da vida? E existem casualidades? São algumas das questões que me assolam e que nunca irão ser respondidas. Poderia falar de algumas maldições com as quais já me debati, mas depois penso que mesmo não ter sobrevivido a um desastre de avião, nem ter ganho a lotaria, bem lá no fundo, considero que tenho uma certa dose de sorte a meu favor. 

Uma tia minha diz-me muitas vezes que tenho um grande anjo da guarda ao meu lado. E eu acho que sim, que ela tem razão.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Aceitar os vazios

Desde que me conheço que lido mal com os vazios que se instalam na minha vida. É certo que, à medida que fui crescendo (pouco), e que fui me conhecendo melhor, os mesmos deixaram de me atingir, não com menos frequência mas sim com menos impacto. Com menos força. Até há cerca de três anos, a maneira que tinha de lidar com os vazios, a maior parte deles, sem qualquer explicação plausível, era através da fuga. Fosse com substâncias, sexo, comida ou compras ou outra "diversão", qualquer hipótese era válida para escapar ao desconforto e por vezes até da dor que sentia. Depois surgiu a terapia cognitiva comportamental, e com ela surgiram também novos conhecimentos e significados. Fui descobrindo coisas que a minha alma imatura simplesmente desconhecia. Não deixei de fugir por completo, mas pelo menos agora, tenho mais consciência do que se passa no meu interior e tenho opção de encarar esse limbo onde nada parece fazer sentido e que me deixa à toa e desorientado. Encarar os desafios que resultam do choque frontal com o vazio, requer coragem, acima de tudo coragem, e também assumir a própria vulnerabilidade. É importante que o saibamos fazer sozinhos. Saber preencher o espaço em branco, pode ser doloroso mas penso que se soubermos o que nos energiza, meio caminho está feito. Encontro agora, diversas formas de lidar com esse espaço, sendo que a leitura, o exercício físico, a meditação e o contacto com os outros, encabeçam a lista das possíveis soluções. No entanto, para que também essas coisas não se tornem uma fuga desmesurada, e, por conseguinte, viciante e pouco saudável, tento perceber e sentir todas as emoções e sentimentos que resultam dessa viagem à parte que nos deixa ocos. Tento trabalhar sobre eles. Procuro sobretudo o que fazer com tais emoções, porque todas elas têm o seu propósito, muitas vezes camuflado ou residente numa parte que não alcançamos. Desbravar caminho torna-se essencial, ultrapassando desconfortos e dores. 

Aqui há uns tempos, tomei a decisão, por impulso, de deixar de fumar. Sem nenhum plano, eu que sou avesso a eles, não por não achar que não façam sentido, mas sim porque sou péssimo em traçá-los. Claro que falhei. Estava impreparado a muitos níveis. Mas a maior dificuldade que senti, foi mesmo a de lidar com o vazio que a falta dos cigarros me infligia. A parte da dependência física estava controlada por via de medicação, a parte psicológica toda minada pela minha incapacidade em estar sem o fumo. Posto assim parece simples: basta pensar nos malefícios e toca a andar para a frente. No outro lado, dentro da minha cabeça, a coisa ganha volumes de complexidade gigantes. 

Tenho por hábito acordar muito cedo, geralmente por volta das cinco da manhã já estou de pé. Faço os meus rituais de madrugada que incluem higiene pessoal, leitura, meditação, e claro... fumar. Fumar à janela de madrugada enquanto bebo um café, é das coisas que não tem preço. São momentos meus em que observo o nascer do dia, os gatos que cruzam a estrada, o ar limpo da manhã, o silêncio que anestesia a cidade. Nos tais dias em que tentei deixar de fumar, esses momentos ficaram comprometidos. Não eram iguais, Não tinham a mesma intensidade, e eu tinha a sensação de viver numa casa onde falta sempre uma divisão ou que está desarrumada. Aquela sensação de ausência de algo, e, neste caso, muito bem identificada. Os cigarros! Foi um instante enquanto dei por mim a acender um atrás do outro novamente. 

Mas fumar já não se coaduna com o estilo de vida que quero ter e que procuro implementar. De alguma maneira, já não faz parte de mim. Por mais suplementos que tome, por mais exercício físico que faça, por mais que tente ter um sono equilibrado e sólido, por mais que tente respirar saúde mental, é como se o facto de fumar, minasse tudo isto e fosse uma mancha em mim, ou melhor, uma nódoa que a maior das vontades não consegue remover. Que puta de situação.

Ontem a minha terapeuta disse-me de uma forma complexa e profunda aquilo que, mais tarde, resumiu com uma frase: precisas de aceitar o vazio.

E é neste ponto que me encontro: a tentar perceber como o vou fazer. Porque aceitar vazios é encarar a alma de frente e nesse campo, sou excelente em boicotar-me. 

Sei que há um desejo que já ganhou forma há muito, que é largar este hábito sujo. E para isso, também me preciso de ver livre de outra coisa em que sou muito bom - parar de me dar porrada mental. Mas isso é assunto para outro dia e outro cigarro depois.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

colecionar o inútil

Tenho andado a pensar nas coisas que vamos acumulando ao longo da nossa vida. Pensei, por  exemplo, na casa da minha mãe e nas coisas todas que há lá dentro. Um dia, olhava para alguns desses objectos, alguns decorativos, e pus-me a tecer, que caso ela parta antes de mim, eu e a minha irmã ficaremos com tudo o que foi dela. O espaço não é enorme, mas está bem aproveitado. Cada canto tem algo que eu, pessoalmente, não aprecio ou não vejo qualquer utilidade. À parte de uns tachos, canecas, pratos, talheres, formas de bolos, copos que dão sempre um jeitinho do caraças, há vasos chineses, loucinhas, serviços de chá, peças em cobre que decoram a cozinha. Tudo coisas que, para mim, não sinto terem um objectivo específico. O que farei com elas? Posso dá-las a quem precisa, claro, mas certamente que sentirei o peso da história que está por detrás de cada uma dessas coisas e também o facto de ter pertencido a uma pessoa que me amava incondicionalmente. Depois pensei também nas minhas próprias coisas. Os objectos também contam capítulos das nossas vidas, é certo. Marcam lugares, pessoas e momentos pelos quais nos passeámos. Cada um deles é uma espécie de prova viva de que estamos por cá. É assim que olho para eles. São rastos materiais da nossa identidade e que revelam gostos, manias, desejos. Tudo passa e ao mesmo tempo, tudo fica.

Acumulei livros essencialmente. Não possuo grandes bens. Se pensar na efemeridade da vida, faz-me ainda mais sentido não ser coleccionador de nada. Andamos por aqui pouco tempo, deixar a menor bagagem possível é o meu objectivo. Claro que gostaria de deixar algumas coisas à minha filha, sobretudo e fundamentalmente a tão desejada segurança financeira. Mas não quero que, um dia, tenha nas mãos a dificuldade de se ver livres das coisas que a pancada do pai lhe deixou. Cada vez mais sou apologista de usar mas não abusar, em quase tudo o que me gravita, e isso inclui as coisas que compro. Ainda tropeço no erro de adquirir objectos que mais tarde só me pesam e nada trazem de concreto à minha vida. Nada de útil. Faz-me sentido investir no conhecimento e continuar a expandir a minha curiosidade e criatividade, isso sim. Colecionar monos, sejam eles de que natureza for, não é o meu forte. Procuramos através do que adquirimos preencher buracos que não são possíveis de serem preenchidos desse modo. Já o fiz e, provavelmente, continuarei a fazê-lo aqui e ali. Mas estou desperto, e não quero ir por aí. A vida já me ensinou e mostrou que a maior prenda que dou a minha próprio é o culto das coisas invisíveis e que se convertem em memórias agradáveis e confortantes. É assim e sempre será, pelo menos neste meu entendimento. Estar desperto, significar conhecer bem o limiar do que nos faz falta e é mesmo essencial, daquilo que não nos acrescenta nada. Podemos olhar à nossa volta e gostar de ver provas do nosso esforço, mas eu encontro outras formas de me rever noutras provas. 

Defendo acima de tudo, para fazeres o que achares bem e de acordo com aquilo que te move. A mim, move-me muito o movimento, da mente e do corpo, e isso quer dizer que não quero estagnar e estar parado como muitas vezes estou. 

Coleccionar formas de prazer e de riqueza interior é a minha prioridade, mas sou um pequeno bebé nisso. Crescerei se assim quiser.

segunda-feira, 31 de março de 2025

AI

A inteligência artificial está a minar tudo quanto é sociedade. Pessoas preguiçosas, tornam-se escritores, designers, «artistas» e tudo o que a imaginação consegue abarcar. Bill Gates diz que dentro de 10 anos os humanos irão trabalhar dois dias por semana, enquanto as máquinas fazem o seus trabalhos. Isto é para lá de assustador. 

Trabalho, actualmente, numa área onde utilizo a AI para me facilitar processos que seriam demasiado extensos e prolongados. E já sabemos que temos de ser produtivos acima de tudo. Não me sinto a perder capacidade cognitiva ou criatividade por ter de recorrer a AI, mas a verdade é que fico sempre um pouco pensativo depois de a utilizar. A AI é manhosa, enganadora, e mentirosa. É preciso espírito crítico para fazer uso dos seus dotes. Há quem fale em psicólogos empoderados pela AI. A AI está por aqui e veio para ficar. Cabe-nos destrinçar o que dela podemos utilizar convenientemente ou não. Eu não quero nada na minha vida que me destrua a capacidade de pensar por mim mesmo e de pôr na linha da vida a minha criatividade. Cada vez gosto mais do mundo analógico, mundo no qual fui criado. Brincava na rua até escurecer, e vivia num bairro onde os miúdos eram quase selvagens. Hoje em dia precisamos de ecrãs para quase tudo. É trabalho, é lazer, é compromissos, agenda e mais o diabo a sete. A AI é uma falta de respeito pelo criadores e pelos autores. É uma sanguessuga que se quer colar à pele daqueles que com esforço vêem as suas melhores ideias estropiadas e aglomeradas em grandes depósitos de informação, recolhida para nos presentear em segundos com uma resposta chapa 5.

Para onde caminhamos, humanos?

Mudanças

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