Há na nossa cabeça memórias que o deixaram de ser à medida que o tempo nos foi carcomendo anos de vida. Muitas vezes, pergunto-me para onde terão ido dias felizes que se apagaram totalmente da minha existência, dias de infância recheados de ouro e brincadeiras, dias de dores que ficaram para sempre, mas que por algum motivo nunca mais nos atingem.
Talvez fosse impossível, sobre-humano até, guardar todos esses momentos para que ficassem acessíveis a qualquer momento. Não deixa de ser irónico, sabermos que vivemos determinadas coisas, que estão algures aqui dentro, mas que não conseguimos aceder. Para onde vão essas coisas?
Sei que houve um dia em que ia com dois amigos passear na cidade, e que do nada encontrei uma nota de cinco contos no chão. Tinha quinze anos. Fui directo ao centro comercial que ficava ali perto e comprei umas All Star novas. Custaram quatro contos e meio. E sei também que, a seguir, paguei o lanche aos meus amigos. Mas não sei onde o fiz, não sei o que comemos, não sei como voltámos para casa, provavelmente eu feliz da vida com uns ténis novos. Todos esses detalhes mergulharam para sempre no inconsciente, ou deverei chamar-lhe subconsciente? Esses pormenores habitam aqui, mas não lhes conheço a tonalidade nem os cheiros.
Faria alguma diferença em saber a textura de tais adornos? O que poderiam trazer para a minha vida?
As memórias constroem-nos. Fazem parte daquilo que somos, as memórias representam episódios que, vividos e apreendidos, nos foram moldando a identidade. E a identidade manifesta-se em milhares de coisas no dia-a-dia. É a prova de que existimos.
As memórias que não são memórias, não ficam de fora dessa identidade. Remanescem algures na fronteira e no limiar do que pudemos assimilar como sendo nosso.
Às vezes, esforço-me por ir espiar os dias de que não me recordo, mas trago de lá sempre uma mão cheia de nada e outra cheia de coisa nenhuma. É ingrato, mas essencial também.
Talvez, se vivêssemos cientes de tudo, explodiríamos com tanta informação, com tantas emoções e sentimentos.
As memórias que não são memórias, são cartas seladas para nenhum destinatário, e são, acima de tudo, prova de que temos limites, e que não poderemos chegar a todo o lado. E isso tanto vale para os caminhos obscuros do cérebro, como para os caminhos que o corpo percorre no quotidiano.
À medida que escrevo, penso se este dia não será, no futuro, só mais um dia que vivi e do qual não vai restar nada. Quantos tenho desses?
Se fizer hoje algo de bombástico, algo que me marque, talvez não fique esquecido. Se calhar é assim que devíamos de viver — a fazer dos dias apeadeiros importantes, e onde não nos esquecemos de parar e contemplar.
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