quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

breve ensaio sobre como ser estúpido

Estava estático em cima da cama a ouvir o álbum do Nick Cave «Ghosteen». A música entrava-me pelos ouvidos indo ribombar directamente na Aorta. O telefone tocou. Não atendi. Permaneci quieto, ouvindo cada palavra deste homem que já passou pelas trevas. Se formos a ver bem, toda a gente já passou em algum momento pelos infernos. Infelizmente, temos a capacidade, não só de os criar, como também de os amplificar. Atravesso uma fase esquisita. Não é propriamente tormenta. É de gestação, acho. Há qualquer coisa nova a nascer dentro de mim, ao mesmo tempo que outras se extinguem. Sou eu que estou a mudar, não sei se para pior ou para melhor. Mais tarde saberei. Não estou preocupado com isso agora.
Mas nesta fase, encontro-me bastante receptivo para perceber que raio de planos tem o «senhor de lá de cima» para mim, uma vez que eu não tenho nenhum. Excepto sobreviver. É esse o plano primordial. Foi sempre, mesmo sabendo que quando se sobrevive, não se vive. Mas eu já não aspiro viver. Viver é demasiado complicado. Exige muito, requer forças astronómicas de um gajo. Forças essas que já não tenho. Fiquei gordo e devo ter aqui uns desequilíbrios hormonais que alavancam a estupidez e a inércia. Andam de mãos dadas, essa putas. 
Hoje de manhã fui aos correios comprar envelopes. Quando lá cheguei, faltavam 10 minutos para abrirem portas. Uma senhora chegou e perguntou «está fechado?». Apeteceu-me dizer que estávamos na rua porque nos apetecia estar ali parados a olhar para a santa engrácia do vazio mental. E aí percebi que havia algo de errado em mim. Não costumo ter estas vontades, esta vontade de malhar no outro e fazer pouco dele. Somos o que pensamos, no entanto. Fiquei alerta durante o dia porque não gosto de estar assim - irritado com o mundo. Mas acontece. Frequentemente. Sinto-me estúpido e pouco evoluído, uma espécie de homem das cavernas, de moca em riste a perseguir o primeiro animal que encontrar. Não te esqueças que isto deveria ser um ensaio de estupidez. Ao que parece já não é. É que eu hoje, obriguei-me a escrever. E agora já não sei porquê. Saiu isto - nada.

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