segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

os bêbedos do costume

Aqui há dias, encontrei um grande amigo de adolescência. Na verdade conhecemo-nos na primária, mas seria só mais tarde que nos ligaríamos bastante. Partilhávamos o gosto comum pela música e num dia, algures em 1996, decidimos formar uma banda. Arranjámos rapidamente um baixista e um baterista, ambos também relativamente conhecidos na nossa zona de vizinhança. A banda foi um enorme fracasso. Mudámos de nome cinquenta mil vezes, ensaiávamos pouco, e tocávamos bastante mal. Como vocalista, fui a pior das alminhas. Mas o que importa é que éramos muito amigos. Às sextas e sábados, saíamos à noite e bebíamos imenso. Às vezes acabávamos a noite no Mac Donalds, recentemente aberto na cidade. Estávamos em 1996 e todos tínhamos sonhos. Hoje sei que nenhum daqueles elementos acabou por seguir o caminho que queria. Acho eu, à distância de quem já não se comunica. 

Perdemos muito na vida, e as amizades são algumas dessas coisas. Não adianta procurar motivos, às vezes é só mesmo a própria vida que se encarrega de o fazer. Depois da banda acabar, e já em idade adulta, eu e esse amigo costumávamo-nos encontrar num bar da cidade que era o mais alternativo do burgo. Poetas, bruxas, loucos, músicos e outros relegados da sociedade, encontravam-se por ali para beber copos e fumar charros à lareira. A vida era leve nessa altura. O que não sabíamos é que estávamos a cavar um fosso muito grande entre nós e aquilo que era minimamente aceitável para uma vida - digamos normal -, e muito nos perdemos naquele espaço, rezando para que o fígado aguentasse. 

Aqui há dias encontrei esse meu amigo numas bombas de gasolina. Ia para um jantar de malta com quem tirara uma formação em Culinária. Tinha no hálito o selo do álcool. Falámos um pouco e ficámos de beber um café. Disse-lhe que eu já não era o Fernando daqueles tempos, disse-lhe que me tornara anti-social, que me tornara um monstro solitário das cavernas. Ele ficou espantado e disse qualquer coisa como «tu que eras tão popular«. e eu pensei «só se for popular na republica popular da China». Enfim. Apalavrámos um encontro que, provavelmente, nunca se vai dar.

Recordo-me de sermos os bêbedos do costume, de viver a vida sem freios e sem limites, de agarrar a leveza, e querer que ela durasse para sempre, coisa que naquela altura até acreditávamos ser possível. Mas depois cresce-se e as responsabilidades acabam sempre por nos vir cobrar contas. Não há como fugir a isto. Não importa que volta tentamos dar, o sítio onde se vai parar traz sempre os adornos da idade adulta e do que ela representa. Acredito que nós os dois, eu e esse amigo, de entre os elementos da banda, somos os que mais sentimos na pele a diferença entre seguir a normalidade e não seguir. Pagámos bem caro as escolhas parvas que fizemos. É a vida. Agora é tentar remediar da melhor maneira, o que nem sempre é fácil. Às vezes, a destruição é muita e tudo o que requer construção, leva muito, muito tempo a conseguir.

Os bêbedos do costume fogem agora das sombras nas quais viveram por demasiado tempo, e um dia, talvez, o sol acabe por afastar para sempre essa escuridão.


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