lá onde tu estás, estou eu também. recordo-me dos tempos da tua loja quando esperávamos o final do dia como quem espera a iminência do tudo e dos impossíveis. vivíamos com a ignorância dos deuses, e não tínhamos medo de percorrer o corpo um do outro debaixo dos gestos aflitivos e selvagens. não éramos íntimos, ainda, mas sabíamos que a intimidade é muito mais que aquela que é tão falada e aborrecida, e que no fim, é apenas uma ligeira atenção. a intimidade que chega a doer nos ossos é outra coisa. nós éramos atentos um ao outro, atentos ao desejo incomensurável, atentos aos escombros que eram as nossas vidas, e no meio dessas ruínas, encontrámos algures o sentido que nos remetia para a leveza dos dias solenes e ternos. era isso e muito mais do que é indizível, que nos catapultava para um mundo de fantasias, onde tu, do alto da tua nudez, segredavas «sou louca por ti».
recordo-me dos tempos na casa à beira mar. refúgio último de quem não queria ser visto, de quem achava que um mero olhar de desconhecidos poderia roubar algo do que fosse nosso. e nós queríamos tudo. recordo os silêncios que nos prostraram, os silêncios nos quais fui navegando, à espera que um milagre qualquer fizesse de mim alguém diferente, alguém de confiança, alguém masculino e feminino que soubesse comunicar. essa casa do mar, essa cama onde tantas vezes nos urdimos receando que a morte nos atravessasse e que fosse a última a proclamar «eu estou aqui». éramos miúdos, ingénuos, a acreditar cegamente em todas as possibilidades. nessa casa do mar onde fumávamos cigarros depois da paixão e o sexo dócil nos assolar os corpos. éramos tudo e nada. éramos esperança na fila do crepúsculo, nas palavras ditas e atiradas contra o peito do amor. sabíamos o que era sofrer, sofrer de saudade, quando ainda não estávamos há sete minutos e nove segundos um sem o outro. não sabíamos o que nos esperava, não sabíamos que a morte lenta viria disfarçada e subtil, sem se anunciar, como aquela torneira avariada que pinga durante toda a noite e que não ouvimos mas que está lá a bombardear-nos o subconsciente. éramos plenos e gigantes. podia dizer que éramos gigantes no sentir, mas detesto a expressão, e claro, remete-me para sentimentos, eu que sempre fui um poço absurdo cheio de coisas que não sei dizer em vez de água limpa e cristalina.
«sou louca por ti« dizias. e eu ouvia e assustava-me, porque nunca ninguém correra o risco de enlouquecer por mim, e tu corrias esse risco como uma maratonista que ataca dezenas de quilómetros.
sei bem onde estamos, no limbo finito das promessas dirigidas aos nossos fantasmas, que esperamos não nos atormentarem o sono nos dias lentos e intermináveis, dias nos quais nos encontramos e esboçamos meras sombras do que fomos e do que amámos na claridade das ilusões possíveis.
lá onde tu estás, estou eu também. e aguardo que a vida resolva tudo aquilo que eu não sei digerir.
tive sempre entranhas preguiçosas.
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