segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

«diário de quem ficou»

 «a palavra ganhou corpo»

é o que diz o autor do texto da peça «diário de quem ficou», o escritor Paulo Kellerman. assisti a este espectáculo em estado contemplativo e de admiração. contava com algo forte e intenso, dado conhecer alguns dos intervenientes, mas o que eu não sabia é que iria ser completamente catapultado pela força das palavras e o carisma dos actores. o facto de serem amadores e fazerem-no por amor à arte, incutiu às performances aquilo que o Llorca chamaria de ter duende. Ter duende é ir para lá da alma, para lá do que conhecemos, é fazer arte com uma centelha quase sobrenatural. e estes actores, tiveram um grande duende. o texto, escrito a pensar por uma mulher algures na década de 70 do século passado, revelou-se extremamente actual, salientando o papel da mulher perante a sociedade, rompendo-lhes as fragilidades, preconceitos, e  a necessidade de uma revolução de forma a que, de uma vez por todas, a sua voz seja viva, considerada e admirada. 

Por vezes, sente-se uma espécie de loucura próxima a pairar na atmosfera do palco. «Aquelas mulheres« empreendem uma viagem em torno de das palavras, sentimentos e emoções que nos levam a questionar em catadupa o valor de determinadas coisas. Mas o ritmo é frenético, embora cadenciado, e a torrente não pára e acelera. enquanto o espectador digere uma frase, é logo  atingido por outra que o deixa knockout e imerso no significado muitas vezes não imediato das sentenças. 

A mãe do soldado que partiu, sai extrapolada pelas vozes disruptivas dos vários actores que encarnam a mulher, frequentemente roçando um desespero que dói até no espectador. Também a namorada entra-nos alma adentro com os seus poemas sangrentos. é através deles  que «as mães» se aproximam do seu filho em parte incerta e distante. Morto? A coreografia ímpar de corpos que brincam de forma bélica uns com os outros, aproximam a encenação para lá de qualquer coisa indizível e é mais do que um simples testemunho de dramaturgia ou encenação. 

A arte aproxima as pessoas, dizem alguns, pois eu tenho a certeza que ao assistir a este teatro, também eu participei um pouco dele, porque fui arrastado para dentro do palco em espirito, sentindo de muito perto o que é ser mulher, mãe, namorada e soldado. 

Uma vez mais, saliento os papéis e dedicação dos actores - fenomenais. 

Espero que este espectáculo possa respirar ar e que tenha a oportunidade de ir a muitos outros sítios e chegar a mais pessoas. Uma história destas não pode ficar por aqui.


Autores  Cátia Ribeiro, nos poemas, e @paulokellerman no texto

Encenação e Dramaturgia: Cátia Ribeiro

Ambiente Sonoro @nelsonbrites

Apoio ao movimento coreográfico @ritaataide_rosa

Figurinos e Cenário Cátia Ribeiro e @sandrinecordeiro

Desenho de luz Rui Capitão

Actores  @andre.doctours , @andreiamateus.g

@catarinamamede , Cátia Ribeiro, @diogodesousapinto

@emanueljacinto_72 @joao_matos @_lilianasilva_ @ritaataide_ @sandrinecordeiro

Fotografia: Cristina Vicente

sábado, 22 de fevereiro de 2025

uma água Frize

acabei de ir à pastelaria beber uma água Frize limão. paguei 1,55€ pela mesma. disse à senhora que me atendeu, e que por acaso é brasileira, que por mais 50 cêntimos comprava 6 iguais no supermercado. ela disse que já tinha reparado nesse aspecto, e disse que devia ser uma questão cultural «vossa» beber água com gás nos cafés. ora 1,55€ por uma água a meio do dia, é bem puxado. fiquei a pensar na estupidez que é, eu que até tenho destas águas em casa porque compro sempre às dúzias delas; a de ananás é a minha favorita mas também gosto muito da de pepino com lima. fiquei sentado na esplanada a apreciar cada gole daqueles 1,55€. acendi um cigarro e preparava-me para quando saísse dali, vir escrever um romance que tenho todo na tola, pensado e orquestrado. desde que meti nos cornos que não quero publicar, a escrita flui-me como nunca o tinha conseguido. está tudo cá dentro e à medida que os dias vão passando, vou juntando historias que colecciono no dia-a-dia pelas ruas fora. hoje surgiu mais uma. e não é por nada, mas se conseguir meter no papel aquilo que se ensimesmou, vai ficar brutal. quando um gajo se liberta da ideia de que publicar é que é fixe, as cenas andam a outro nível. penso que não tenho categoria para publicar, mas também penso que quero escrever um romance para contar a mim próprio esta tal história que engendrei dentro de mim. 1,55€ de água depois e decido fazer uma pequena caminhada. li que é bom, caminhar por dez minutos depois da refeição. deve ser verdade porque aquando da minha chegada a casa, senti-me um pouco mais leve e ágil. sou adepto das sestas, aqui há dias soube que chamam de «power naps» às sestas de 25 minutos. a questão é que se eu me encosto depois do almoço, a power nap passa para «cosmic nap» pois vai durar 2h30m. mas hoje não quero dormir. quero estar bem acordado, coisa que já aconteceu desde as 5 da manhã, altura em que despertei para mais um dia-madrugada. irei escrever pois. irei contar histórias a mim mesmo. não é sempre o que nos vale para escapar à realidade dura?

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

sexta-feira à noite

num momento danças em cima da coluna na discoteca, e uns anos mais tarde, medes a tensão antes de ir para a cama. o tempo é um cavalo.

os rótulos

regra geral, as pessoas rotulam muito aquilo que as rodeia, com especial ênfase a quem está ao nosso lado. também já o fiz, acho que todos já o fizemos em determinadas alturas das nossas vidas. isto a propósito de um vizinho meu a quem lhe foi diagnosticado há muitos anos esquizofrenia. de lá para cá, existe quem se refira a ele como «esquizofrénico», «doente mental» (os mais generosos), ou simplesmente «maluco». tenho por hábito acordar cedo. normalmente, por volta das 5:00h já estou acordado, porque me deito cedo também. aqui há dias, uma amiga minha disse-me que nem quando tinha 6 anos se deitava tão cedo. mas eu gosto desta rotina, até porque batalho com a saga de dormir noites inteiras e seguidas. digo isto, porque ainda agora eram pouco mais das seis da manha, e lá ia esse meu vizinho, enquanto eu fumava um cigarro à janela. a esta hora, a pastelaria aqui do lado já abriu. é para lá que ele vai. vejo-o passar inúmeras vezes rua abaixo, rua acima. vai tomar o pequeno-almoço e fumar uns cigarros. ao fim do dia vai beber umas cerveja. sei-o porque às vezes passo por lá e já lhe conheço os hábitos. 

ele fala alto, sobretudo quando atende chamadas dos seus potenciais clientes. desde muito cedo que o vejo a arranjar carros, ou a tentar pelo menos. 

sempre que tem algum dinheiro disponível, compra coisas na Temu. acima de tudo, coisas de que não necessita. mas tudo bem, porque «ele é maluco». para mim, antes de tudo isso, ele é um ser humano, que já passou por muitas dificuldades; internamentos na psiquiatria, desemprego, descriminação, acessos de fúria em que destruiu o carro à bastonada, e muitas outras coisas que não caberiam aqui. antes de ser «esquizofrénico», ele é muito mais que isso. as pessoas são muito mais do que os diagnósticos que lhes foram atribuídos. são muito mais do que as doenças que envergam. são muito mais do que aquilo que sai da boca das pessoas, geralmente barbaridades e atrocidades. as pessoas são um mundo complexo de algoritmos mentais que são pré-determinados pela biologia de cada um. e esses algoritmos não deveriam ser  classificados e, muito menos, julgados. esses processos mentais que estão na base de cada indivíduo agir, são extremamente pessoais e não dizem respeito a mais ninguém. podemos discordar, podemos não embarcar em falinhas mansas, mas não deveremos nunca dizer «ele é maluco». já bem bastam os terrores pessoais com que se tem de lidar. o resto não nos pertence. e se andássemos mais preocupados em gerir as nossas próprias questões, menos espaço haveria para a crítica e para o julgamento. os rótulos são uma merda, e os únicos que curto realmente, são os róulos dos alimentos para ver o que é que um gajo anda a comer. deixem andar os malucos, onde eu também estou incluído. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

ode ao tédio

a sociedade fez de nós seres competitivos. aqueles que não competem com outros que os rodeiam, competem, em ultima instância, consigo próprios. a exigências dos dias, a exigência da sobrevivência, as grandes corporações, a batalha com os demónios pessoais, são alguns motivos que nos levam a querer, pelo menos, igualar o outro. neste ritmo frenético e alucinante, somos «obrigados» a estarmos sempre completamente ocupados. todos os minutos contam nesta corrida do ratos, porque a vida quase que depende do que fazemos. precisamos de ser produtivos, precisamos de ter a máquina oleada para que nada escape. se não estivermos a fazer uma merda qualquer, somos capazes de nos sentir culpados, ou ter pelo menos um sentimento estranho de que se está a omitir algo importante. manter a cabeça ocupada tornou-se uma obsessão. 

eu gosto de não fazer nada. simplesmente contemplar. às vezes fico horas a ouvir música e a olhar para o tecto. não fazer nada também é fazer alguma coisa. pode-se pensar, pode-se fazer uma espécie de inventário sobre a nossa postura na vida, pode-se tentar compreender determinadas atitudes que tivemos. não fazer nada é estar atento ao pulsar da vida. é não deixar que a pressão de sermos alguma coisa neste mundo, nos atropele a essência. é não nos deixarmos levar pela ganância do espirito. estarmos constantemente ocupados também pode ser uma fuga ao que sentimos, um escape perfeito e admitido à realidade. é preciso olhar mais em volta - digo eu, que sou um admirador dos vazios e dos tédios.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

lá onde tu estás

lá onde tu estás, estou eu também. recordo-me dos tempos da tua loja quando esperávamos o final do dia como quem espera a iminência do tudo e dos impossíveis. vivíamos com a ignorância dos deuses, e não tínhamos medo de percorrer o corpo um do outro debaixo dos gestos aflitivos e selvagens. não éramos íntimos, ainda, mas sabíamos que a intimidade é muito mais que aquela que é tão falada e aborrecida, e que no fim, é apenas uma ligeira atenção. a intimidade que chega a doer nos ossos é outra coisa. nós éramos atentos um ao outro, atentos ao desejo incomensurável, atentos aos escombros que eram as nossas vidas, e no meio dessas ruínas, encontrámos algures o sentido que nos remetia para a  leveza dos dias solenes e ternos. era isso e muito mais do que é indizível, que nos catapultava para um mundo de fantasias, onde tu, do alto da tua nudez, segredavas «sou louca por ti». 

recordo-me dos tempos na casa à beira mar. refúgio último de quem não queria ser visto, de quem achava que um mero olhar de desconhecidos poderia roubar algo do que fosse nosso. e nós queríamos tudo. recordo os silêncios que nos prostraram, os silêncios nos quais fui navegando, à espera que um milagre qualquer fizesse de mim alguém diferente, alguém de confiança, alguém masculino e feminino que soubesse comunicar. essa casa do mar, essa cama onde tantas vezes nos urdimos receando que a morte nos atravessasse e que fosse a última a proclamar «eu estou aqui». éramos miúdos, ingénuos, a acreditar cegamente em todas as possibilidades. nessa casa do mar onde fumávamos cigarros depois da paixão e o sexo dócil nos assolar os corpos. éramos tudo e nada. éramos esperança na fila do crepúsculo, nas palavras ditas e atiradas contra o peito do amor. sabíamos o que era sofrer, sofrer de saudade, quando ainda não  estávamos há sete minutos e nove segundos um sem o outro. não sabíamos o que nos esperava, não sabíamos que a morte lenta viria disfarçada e subtil, sem se anunciar, como aquela torneira avariada que pinga durante toda a noite e que não ouvimos mas que está lá a bombardear-nos o subconsciente. éramos plenos e gigantes. podia dizer que éramos gigantes no sentir, mas detesto a expressão, e claro, remete-me para sentimentos, eu que sempre fui um poço absurdo cheio de coisas que não sei dizer em vez de água limpa e cristalina. 

«sou louca por ti« dizias. e eu ouvia e assustava-me, porque nunca ninguém correra o risco de enlouquecer por mim, e tu corrias esse risco como uma maratonista que ataca dezenas de quilómetros. 

sei bem onde estamos, no limbo finito das promessas dirigidas aos nossos fantasmas, que esperamos não nos atormentarem o sono nos dias lentos e intermináveis, dias nos quais nos encontramos e esboçamos meras sombras do que fomos e do que amámos na claridade das ilusões possíveis. 

lá onde tu estás, estou eu também. e aguardo que a vida resolva tudo aquilo que eu não sei digerir. 

tive sempre entranhas preguiçosas.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

a importância do shift

andava a dormir extremamente mal. dormia 5 a 6 horas por dia, às vezes 4 e pouco. sonho muito, e acordo frequentemente por causa das viagens que o subconsciente empreende, levando-me a sítios que, quando acordo, me deixam maravilhado e, ao mesmo tempo, assustado e perturbado. não é que sejam pesadelos, mas são ruminações esquisitas e vivências cheias de coisas aleatórias e descabidas. esta noite sonhei que uma ex-namorada era vítima de uma cabala engendrada por outra ex-namorada. aos quarenta já colecionamos algumas pessoas que entretanto se extinguiram e seguiram as suas vidas. dei comigo, no entanto, a tentar resolver aquela conspiração no meio de marisqueiras e restaurantes gourmet e outros lugares estranhos. somos aquilo que vivemos, também. no fim, foi o pai da ex-namorada que tentava incriminar a outra acabou por resolver a questão. só que o pai de uma no sonho, era na realidade o pai da outra na vida real, creio. por esta altura os mais atentos, já devem ter percebido que não uso maiúsculas nos inícios das frases. não se deve a uma mania pesudo-literária. é só porque o meu shift do teclado está meio fodido, e como tal, falha-me imensas vezes. tantas que desisti de o procurar, um pouco como fazemos com as pessoas que nos gravitaram e que já não estão. 

tal como carregamos shift para mudar o rumo das letras e diferenciá-las, também temos de embutir o shift em muitas coisas nas nossas vidas. são mudanças de ritmo. são alterações àquilo que nos trava e eu estou tão dentro de uma fase dessas. de ter que mudar, sob o risco de comprometer a vida. os cuidados à volta da minha saúde são esses exemplos. só que não estou a conseguir; cedo a impulsos alimentares, empenho horas de sono, e treino menos. mas isto das mudanças ocorre estabelecendo pequenos hábitos atingíveis, não é? e aqui reparo num erro que tenho vindo a comer sistematicamente: estabelecer metas megalómanas. é esse shift que tenho de fazer. carregar na seta para cima, e começa do zero e devagar. nem sempre é fácil, até porque nestes dias de chuva mas com muita luz, a minha visão turva-se e preciso de recorrer muitas vezes aos óculos de sol. parabéns, Fernando - mais um texto sem nexo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

breve ensaio sobre como ser estúpido

Estava estático em cima da cama a ouvir o álbum do Nick Cave «Ghosteen». A música entrava-me pelos ouvidos indo ribombar directamente na Aorta. O telefone tocou. Não atendi. Permaneci quieto, ouvindo cada palavra deste homem que já passou pelas trevas. Se formos a ver bem, toda a gente já passou em algum momento pelos infernos. Infelizmente, temos a capacidade, não só de os criar, como também de os amplificar. Atravesso uma fase esquisita. Não é propriamente tormenta. É de gestação, acho. Há qualquer coisa nova a nascer dentro de mim, ao mesmo tempo que outras se extinguem. Sou eu que estou a mudar, não sei se para pior ou para melhor. Mais tarde saberei. Não estou preocupado com isso agora.
Mas nesta fase, encontro-me bastante receptivo para perceber que raio de planos tem o «senhor de lá de cima» para mim, uma vez que eu não tenho nenhum. Excepto sobreviver. É esse o plano primordial. Foi sempre, mesmo sabendo que quando se sobrevive, não se vive. Mas eu já não aspiro viver. Viver é demasiado complicado. Exige muito, requer forças astronómicas de um gajo. Forças essas que já não tenho. Fiquei gordo e devo ter aqui uns desequilíbrios hormonais que alavancam a estupidez e a inércia. Andam de mãos dadas, essa putas. 
Hoje de manhã fui aos correios comprar envelopes. Quando lá cheguei, faltavam 10 minutos para abrirem portas. Uma senhora chegou e perguntou «está fechado?». Apeteceu-me dizer que estávamos na rua porque nos apetecia estar ali parados a olhar para a santa engrácia do vazio mental. E aí percebi que havia algo de errado em mim. Não costumo ter estas vontades, esta vontade de malhar no outro e fazer pouco dele. Somos o que pensamos, no entanto. Fiquei alerta durante o dia porque não gosto de estar assim - irritado com o mundo. Mas acontece. Frequentemente. Sinto-me estúpido e pouco evoluído, uma espécie de homem das cavernas, de moca em riste a perseguir o primeiro animal que encontrar. Não te esqueças que isto deveria ser um ensaio de estupidez. Ao que parece já não é. É que eu hoje, obriguei-me a escrever. E agora já não sei porquê. Saiu isto - nada.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

os bêbedos do costume

Aqui há dias, encontrei um grande amigo de adolescência. Na verdade conhecemo-nos na primária, mas seria só mais tarde que nos ligaríamos bastante. Partilhávamos o gosto comum pela música e num dia, algures em 1996, decidimos formar uma banda. Arranjámos rapidamente um baixista e um baterista, ambos também relativamente conhecidos na nossa zona de vizinhança. A banda foi um enorme fracasso. Mudámos de nome cinquenta mil vezes, ensaiávamos pouco, e tocávamos bastante mal. Como vocalista, fui a pior das alminhas. Mas o que importa é que éramos muito amigos. Às sextas e sábados, saíamos à noite e bebíamos imenso. Às vezes acabávamos a noite no Mac Donalds, recentemente aberto na cidade. Estávamos em 1996 e todos tínhamos sonhos. Hoje sei que nenhum daqueles elementos acabou por seguir o caminho que queria. Acho eu, à distância de quem já não se comunica. 

Perdemos muito na vida, e as amizades são algumas dessas coisas. Não adianta procurar motivos, às vezes é só mesmo a própria vida que se encarrega de o fazer. Depois da banda acabar, e já em idade adulta, eu e esse amigo costumávamo-nos encontrar num bar da cidade que era o mais alternativo do burgo. Poetas, bruxas, loucos, músicos e outros relegados da sociedade, encontravam-se por ali para beber copos e fumar charros à lareira. A vida era leve nessa altura. O que não sabíamos é que estávamos a cavar um fosso muito grande entre nós e aquilo que era minimamente aceitável para uma vida - digamos normal -, e muito nos perdemos naquele espaço, rezando para que o fígado aguentasse. 

Aqui há dias encontrei esse meu amigo numas bombas de gasolina. Ia para um jantar de malta com quem tirara uma formação em Culinária. Tinha no hálito o selo do álcool. Falámos um pouco e ficámos de beber um café. Disse-lhe que eu já não era o Fernando daqueles tempos, disse-lhe que me tornara anti-social, que me tornara um monstro solitário das cavernas. Ele ficou espantado e disse qualquer coisa como «tu que eras tão popular«. e eu pensei «só se for popular na republica popular da China». Enfim. Apalavrámos um encontro que, provavelmente, nunca se vai dar.

Recordo-me de sermos os bêbedos do costume, de viver a vida sem freios e sem limites, de agarrar a leveza, e querer que ela durasse para sempre, coisa que naquela altura até acreditávamos ser possível. Mas depois cresce-se e as responsabilidades acabam sempre por nos vir cobrar contas. Não há como fugir a isto. Não importa que volta tentamos dar, o sítio onde se vai parar traz sempre os adornos da idade adulta e do que ela representa. Acredito que nós os dois, eu e esse amigo, de entre os elementos da banda, somos os que mais sentimos na pele a diferença entre seguir a normalidade e não seguir. Pagámos bem caro as escolhas parvas que fizemos. É a vida. Agora é tentar remediar da melhor maneira, o que nem sempre é fácil. Às vezes, a destruição é muita e tudo o que requer construção, leva muito, muito tempo a conseguir.

Os bêbedos do costume fogem agora das sombras nas quais viveram por demasiado tempo, e um dia, talvez, o sol acabe por afastar para sempre essa escuridão.


Mudanças

Este blogue viajou para  aqui: SUBSTACK .....