é o que diz o autor do texto da peça «diário de quem ficou», o escritor Paulo Kellerman. assisti a este espectáculo em estado contemplativo e de admiração. contava com algo forte e intenso, dado conhecer alguns dos intervenientes, mas o que eu não sabia é que iria ser completamente catapultado pela força das palavras e o carisma dos actores. o facto de serem amadores e fazerem-no por amor à arte, incutiu às performances aquilo que o Llorca chamaria de ter duende. Ter duende é ir para lá da alma, para lá do que conhecemos, é fazer arte com uma centelha quase sobrenatural. e estes actores, tiveram um grande duende. o texto, escrito a pensar por uma mulher algures na década de 70 do século passado, revelou-se extremamente actual, salientando o papel da mulher perante a sociedade, rompendo-lhes as fragilidades, preconceitos, e a necessidade de uma revolução de forma a que, de uma vez por todas, a sua voz seja viva, considerada e admirada.
Por vezes, sente-se uma espécie de loucura próxima a pairar na atmosfera do palco. «Aquelas mulheres« empreendem uma viagem em torno de das palavras, sentimentos e emoções que nos levam a questionar em catadupa o valor de determinadas coisas. Mas o ritmo é frenético, embora cadenciado, e a torrente não pára e acelera. enquanto o espectador digere uma frase, é logo atingido por outra que o deixa knockout e imerso no significado muitas vezes não imediato das sentenças.
A mãe do soldado que partiu, sai extrapolada pelas vozes disruptivas dos vários actores que encarnam a mulher, frequentemente roçando um desespero que dói até no espectador. Também a namorada entra-nos alma adentro com os seus poemas sangrentos. é através deles que «as mães» se aproximam do seu filho em parte incerta e distante. Morto? A coreografia ímpar de corpos que brincam de forma bélica uns com os outros, aproximam a encenação para lá de qualquer coisa indizível e é mais do que um simples testemunho de dramaturgia ou encenação.
A arte aproxima as pessoas, dizem alguns, pois eu tenho a certeza que ao assistir a este teatro, também eu participei um pouco dele, porque fui arrastado para dentro do palco em espirito, sentindo de muito perto o que é ser mulher, mãe, namorada e soldado.
Uma vez mais, saliento os papéis e dedicação dos actores - fenomenais.
Espero que este espectáculo possa respirar ar e que tenha a oportunidade de ir a muitos outros sítios e chegar a mais pessoas. Uma história destas não pode ficar por aqui.
Autores Cátia Ribeiro, nos poemas, e @paulokellerman no texto
Encenação e Dramaturgia: Cátia Ribeiro
Ambiente Sonoro @nelsonbrites
Apoio ao movimento coreográfico @ritaataide_rosa
Figurinos e Cenário Cátia Ribeiro e @sandrinecordeiro
Desenho de luz Rui Capitão
Actores @andre.doctours , @andreiamateus.g
@catarinamamede , Cátia Ribeiro, @diogodesousapinto
@emanueljacinto_72 @joao_matos @_lilianasilva_ @ritaataide_ @sandrinecordeiro
Fotografia: Cristina Vicente
